EU, CRIANÇA

Vício nos Jogos da Internet

Atualmente assistimos a muitas crianças e jovens envolvidos em jogos na internet, muitas vezes mais tempo e com mais frequência do que seria desejado. Mas quando é que podemos dizer que se trata de um vício, que já não é um comportamento normal? Estas são algumas das características às quais deve estar atento:

  • Preocupação constante com o jogo, pensando nos jogos anteriores ou antecipando os próximos;
  • Sintomas de abstinência, como irritabilidade ou ansiedade, quando os jogos de internet são retirados;
  • Agitação ou mesmo agressividade quando os jogos são interrompidos (ex. falha na internet);
  • Perda da noção do tempo durante o jogo, podendo estar várias horas a jogar;
  • Longos períodos de tempo sem dormir ou comer, para permanecer a jogar;
  • Perda de interesse noutras atividades, em consequência do envolvimento nos jogos de internet;
  • Aumento do tempo dedicado aos jogos online;
  • Enganar familiares, amigos ou terapeutas em relação à quantidade de tempo despendido no jogo;
  • Tentativas falhadas de controlar ou parar de jogar na internet;
  • Falhar a compromissos (ex. aulas, emprego) devido ao envolvimento no jogo;
  • Utilização do jogo como forma de aliviar ou evitar humor negativo (ex. ansiedade, culpa).

A dependência pelos jogos na internet torna-se patológica quando há um envolvimento recorrente, excessivo e prolongado em jogos de computador online. Os sintomas são semelhantes aos das perturbações por uso de substâncias, como perda de controlo e sintomas de abstinência, e os efeitos podem ser igualmente devastadores quanto o consumo de álcool ou drogas ilícitas. O vício nos jogos da internet interfere significativamente na vida das crianças e jovens, nomeadamente no seu desempenho escolar/profissional, nos relacionamentos sociais e familiares e no seu bem-estar físico e psicológico.

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

https://www.itad.pt/tratamento-de-psicologia/dependencia-da-internet-videojogos-criancas-jovens/



Perturbação do Desenvolvimento Intelectual

Caracteriza-se por importantes limitações, tanto no funcionamento intelectual quanto no comportamento adaptativo, expresso nas habilidades conceituais, sociais e práticas. Tem dificuldades para aprender, entender e realizar atividades comuns para as outras pessoas. Muitas vezes, chegam a comportar-se  como se tivessem menos idade do que realmente tem.

Possuem limitações significativas em pelo menos duas das seguintes áreas de habilidades:

  • Aprendizagem e autogestão em situações da vida, como cuidados pessoais, responsabilidades profissionais, controlo do dinheiro e do comportamento;
  • Comunicação
  • Habilidades ligadas à linguagem, leitura, escrita, matemática, raciocínio, memória;
  • Habilidades sociais/interpessoais (empatia, julgamento social e autorregulação)

Devem ser preencher os seguintes critérios:

A. Deficits nas funções intelectuais como raciocínio, resolução de problemas, planeamento, pensamento abstrato, juízo, aprendizagem académica e aprendizagem pela experiência confirmados tanto pela avaliação clínica quanto por testes de inteligência padronizados e individualizados.

B. Deficits em funções adaptativas que resultam em fracasso para atingir padrões de desenvolvimento e socioculturais em relação a independência pessoal e responsabilidade social. Sem apoio continuado, os deficits de adaptação limitam o funcionamento em uma ou mais atividades diárias, como comunicação, participação social e vida independente, e em múltiplos ambientes, como em casa, na escola, no local de trabalho e na comunidade.

C. Início dos deficits intelectuais e adaptativos durante o período do desenvolvimento.

De acordo com a gravidade pode ser:

  • Leve
  • Moderada
  • Grave
  • Profunda

Indivíduos do sexo masculino, em geral, têm mais propensão do que os do sexo feminino para receber diagnóstico de formas moderadas (razão média masculino/feminino 1,6 para 1) e graves (razão média masculino/feminino 1,2 para 1) de deficiência intelectual.

A Deficiência Intelectual não é uma doença mas sim uma limitação. O acompanhamento deve abranger uma equipa multidisciplinar constituída por médicos, psicólogos, terapeutas da fala e ocupacionais. As limitações podem ser superadas através da estimulação sistemática do desenvolvimento, adequações em situações pessoais, escolares, profissionais e sociais, além de oportunidades de inclusão social. Algumas instituições realizam trabalhos eficientes no sentido de promover o diagnóstico, a prevenção e a inclusão.

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

Correia, L. (1997). Alunos com Necessidades Educativas Especiais nas Classes Regulares. Porto: Porto Editora

Santos, S. & Morato, P. (2002). Comportamento Adaptativo. Porto: Porto Editora

https://aaidd.org/intellectual-disability

Mutismo Seletivo

Mutismo selectivo é uma perturbação da ansiedade, caracterizada pela incapacidade da criança (idade escolar), para falar em determinados contextos sociais (escola), em que se espera que fale.

E deixado sem tratamento, pode persistir na idade adulta. Uma criança ou um adulto com mutismo seletivo não recusa ou opta por não falar, eles são literalmente incapazes de falar.

Deste modo, sentem um medo efectivo de falar, bem como, uma dificuldade e medo associado de estabelecer interacções sociais com pessoas que não sejam os seus familiares; também podem ser incapazes de comunicar de uma forma não verbal, ou de estabelecer um contacto visual com o outro, podendo até ficar paralisados, evidenciando um medo de tal ordem intenso (ao verem-se confrontados com certas situações sociais específicas).

Os traços comportamentais incluem timidez excessiva em ambientes sociais não familiares, preocupações com evitamento social, medo do embaraço em situações sociais, isolamento e retraimento sociais, baixa autoestima, negativismo, traços compulsivos, birras ou comportamentos de oposição ligeiros.

Ao recusarem falar na escola, interfere negativamente no seu rendimento académico, uma vez que os professores têm dificuldade em avaliar as suas capacidades (ex. de leitura); também não conseguem comunicar com os professores sobre as suas necessidades escolares e pessoais (não compreendem um trabalho escolar, não pedir para usar a casa-de-banho).

Para além da recusa em falar em determinadas situações sociais:

• Apresentam dificuldade em manter contato visual;
• Ausência de sorriso perante pessoas desconhecidas ou permanecem com expressões vazias;
• Movimentam-se de forma rígida;
• Dificuldade em concretizar interações sociais (despedidas ou agradecimentos);
• Sensibilidade ao ruído e a locais com muitas pessoas;
• Apresentam dificuldade em falar sobre si ou em expressar sentimentos.

Como posso ajudar o meu filho/a:

  • Não forçar a criança a falar.
  • Elaborar formas alternativas de comunicação através de símbolos, gestos ou escrita.
  • Evitar que a criança seja o centro das atenções.
  • Identificar a compatibilidade com algum amigo para jogar e brincar com a criança dentro e fora de casa.
  • Favorecer a prática de atividades desportivas que permitam a interação social e o aliviar de algumas tensões.
  • Responsabilizar a criança por pequenas rotinas domésticas que estimulem a autonomia e a interação verbal e não-verbal (ir comprar pão).
  • Reforçar a criança sempre que houver um aumento no seu comportamento verbal, direcionando às preferências da criança (elogios, abraços, passeios, etc.).

A modificação comportamental, a psicoterapia, a terapia da fala, e a psicofarmacologia (em certos casos específicos) são as intervenções mais usadas nesta problemática.

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

Shipon-Blun, E. (2004). Selective Mutism and Childhood Anxiety Disorders. Disponível em: https://www.selectivemutism.org/
Urbán C.C. et al. (2004). El mutismo selectivo: Guía para su detección, evaluación e intervenciónprecoz en la escuela. Disponível em: https://www.pnte.cfnavarra.es/creena/002conductuales/Guia%20mutismo%20selectivo.htm

Perturbação Desafiante de Oposição

O comportamento das crianças com Perturbação Desafiante de Oposição é hostil, agressivo, não cooperante e desafiador, ocorre com maior frequência e intensidade do que é observado em crianças com a mesma idade ou nível de desenvolvimento, interferindo significativamente no seu desempenho escolar e na vida familiar e social. Estes comportamentos verificam-se para com as figuras de autoridade (professores e pais).

As crianças mais novas com esta perturbação demonstram frequentemente altos níveis de intolerância à frustração, têm dificuldade em adiar a gratificação, perdem facilmente o controlo, manifestando-o, por exemplo, dando pontapés. Por sua vez as crianças mais velhas respondem aos pais, revelam problemas de comportamento passivo-agressivo e são descritas como suscetíveis, teimosas e propensas a discussões.

As crianças/adolescentes com esta perturbação costumam justificar os seus comportamentos como uma resposta às exigências, circunstâncias ou aos comportamento dos outros. É comum envolverem-se em discussões e conflitos, o que pode resultar na rejeição por parte dos colegas de escola e agravar a sua baixa autoestima.

Esta perturbação é mais frequente em rapazes do que em raparigas. Os rapazes mostram-se mais problemáticos, mais impulsivos e agressivos, por sua vez as raparigas mostram mais comportamentos passivo-agressivos, isto é, não desafiam abertamente mas também não cumprem o que lhes é pedido.

Criterios de Diagnostico:

A. Um padrão persistente de um estado de espírito facilmente irritável e zangado, acompanhado de comportamentos desafiantes e vingativos para com uma ou mais pessoas, excluindo irmãos, como é referido nos quatro (ou mais) sintomas seguintes.

Estado de espírito Irritado / Zangado

1. Perda de calma.

2. Suscetível e facilmente irritável pelos outros.

3. Encontra-se zangado e ressentido.

Comportamento Desafiante e de Teimosia

4. Discute com os adultos.

5. Desafia e recusa-se a cumprir pedidos dos adultos constantemente.

6. Irrita os outros deliberadamente

7. Culpa os outros pelos seus próprios erros e mau comportamento

Atitudes vingativas

8. Foi rancoroso ou vingativo no mínimo duas vezes durante os últimos seis meses.

Para além do critério de que este padrão de comportamento esteja presente durante pelo menos 6 meses, para se fazer um diagnóstico é necessário que estejam presentes pelo menos 4 sintomas de qualquer uma das categorias referidas anteriormente.

As suas causas envolvem a interação entre múltiplos fatores (biológicos, psicológicos e sociais). Os fatores ambientais são de extrema importância no desenvolvimento desta perturbação, nomeadamente quando o estilo educativo é permissivo e os pais evitam exercer autoridade ou impor limites, quando a vida familiar é caótica, existem conflitos no casal ou problemas na vinculação.


Quanto mais cedo for identificado, maior a probabilidade de se conseguir intervir eficazmente na criança/adolescente e na família. O plano terapêutico depende da idade da criança, da gravidade dos seus sintomas e dos seus comportamentos, e da presença ou não de outras patologias associadas (ansiedade, depressão, perturbação de hiperatividade e defice de atenção). deste modo a intervenção deve ser individual e também se deve intervir a nível familiar e se necessário a nível escolar

Estratégias comportamentais que podem ajudar os pais na redução dos comportamentos de desobediência e na diminuição da tensão familiar:

  • Os pedidos e instruções devem ser simples e concretos,  não deve deixar dúvidas;
  • Utilize um tom de voz calmo e tranquilo, para evitar a criação de um conflito ou clima de hostilidade;
  • Sempre que possível, é útil disponibilizar-lhes opções (ex. "Queres ajudar a fazer o jantar ou por a mesa?").
  • Evite pedir à criança que se "porte bem", pois desta forma não está a deixar claro os comportamentos específicos que espera dela.
  • Não tenha receio de dizer "não". O estabelecimento de limites é um elemento contentor e securizante.
  • Reforce os comportamentos adequados, e valorize o esforço.

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

https://www.clubephda.pt/clubephda/

Birras

Uma birra é a expressão de uma diversidade de sentimentos. Elas surgem em ambos os sexos, com maior ou menor intensidade, sobretudo em crianças com idades compreendidas entre os 18 e os 48 meses, atingindo o pico por volta dos 2/3 anos.

Coincidem com a altura em que a criança está a adquirir autonomia e a tentar dominar o meio ambiente. Nestas idades as crianças recorrem à birra porque não possuem, ainda, mecanismos para lidar com a frustração, a sua linguagem verbal é insuficiente, não têm capacidade para perceber o futuro e adiar as suas vontades e têm poucas competências para resolver problemas. Deste modo ao recorrem às birras chamam a atenção dos adultos, sobretudo a partir dos três anos, quando já dominam melhor a linguagem falada, como forma de obter o que querem e de manipularem o adulto.

Normalmente, as birras são desencadeadas quando as crianças pretendem a sua autonomia e são incapazes de tomar decisões. Não são motivo para alarme, apesar de serem frustrantes e desagradáveis, uma vez que são formas de expressão das emoções que surgem de um cérebro imaturo; são também "normativas e desenvolvimentais", que tendem a desaparecer ao longo do tempo e desenvolvimento da criança.

Manifestam-se através do: choro, gritos, pontapés, rigidez, extensão dos membros e do tronco. A criança pode também bater nos outros, morder-se, atirar-se para o chão, espernear, fugir, atirar com objectos.

Há sinais que pais devem estar atentos e devem procurar ajuda especializada nomeadamente:

  • quando as birras aumentam de frequência, duração e intensidade, sendo impossível controlá-las;
  • quando a criança se magoa ou magoa os outros;
  • quando a criança destrói brinquedos ou outros objectos;
  • quando as birras ocorrem na escola;
  • quando os pais reagem com agressividade às birras dos seus filhos.

As birras excessivas ou as birras que se prolongam para além da idade habitual podem acompanhar certas perturbações do neurodesenvolvimento, como o défice cognitivo, as perturbações da linguagem, as perturbações do espectro do autismo, a perturbação de défice de atenção e hiperactividade, as perturbações da visão, as perturbações da audição ou as dificuldades escolares. Também fazem parte do quadro clínico de alguns síndromes de causa genética, como o Síndrome de Prader-Willi ou o Síndrome do X Frágil.

O modo mais eficaz de lidar com crianças que fazem birras é impedir que elas ocorram, percebendo deste modo quais são os fatores desencadeadores. Assim:

  • devem ser respeitadas as necessidades de sono da criança (necessidade de sesta);
  • deve-se evitar que a criança sinta fome, respeitando o horário das refeições;
  • os objectos proibidos devem estar fora da sua vista;
  • os brinquedos e jogos devem ser apropriados à sua idade, de modo a não causarem frustração;
  • sempre que possível, deve ser dada à criança a oportunidade de fazer escolhas (escolher a roupa ou os sapatos);
  • deve-se recorrer ao aviso prévio, (dizendo, por exemplo, à criança que irá para a cama assim que terminar a leitura da história ou logo que termine um certo programa de televisão).

Não se deve castigar a criança por fazer uma birra, nem se deve recompensar a birra, ou seja, fazer-lhe a vontade quando faz birra. Deve-se actuar logo no início da birra antes que a criança perca totalmente o controle, desviando a sua atenção, levando-a para outro local (ir para outra divisão da casa, sair do supermercado), contendo a criança no caso dela querer bater ou magoar-se, ignorando a birra nalguns casos ou usando o efeito de surpresa.

Bibliografia: Cordeiro, M. (2011). O Grande Livro dos Medos e das Birras. Lisboa: Esfera dos Livros.

Duarte, A. (2011). As Práticas Educativas Parentais e as Birras das Crianças. Dissertação de Mestrado submetida ao Instituto Superior Miguel Torga. Coimbra: Escola Superior de Altos Estudos.

Gouveia, R. (2009). As Birras na Criança. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar: https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php?journal=rpmgf&page=article&op=view&path%5B %5D=10697

Olds, S., Papalia, D., Feldman, R. (2009). O Mundo da Criança. Lisboa: McGraw-Hil

Perturbações de Eliminação

As Perturbações de eliminação (enurese, encoprese) estão relacionadas com a falta de controlo da urina ou das fezes, em locais inapropriados, de modo repetido (pelo menos duas vezes por semana num mínimo de 3 meses consecutivos), e são habitualmente diagnosticadas pela primeira vez na infância ou na adolescência. Estas perturbações podem ser voluntárias ou involuntárias. Embora costumem ocorrer separadamente, também podem ser observadas concomitantemente.

Manifestam-se mais frequentemente nos rapazes do que nas raparigas, e ambas poderão ser consideradas primárias (caso a criança ainda não tenha adquirido a capacidade de controlo) ou secundária (caso já tenha chegado a controlar por um período mínimo de 6 meses). Conforme a altura do dia em que ocorrem poderão ser consideradas diurnas (mais comum na enurese) ou noturnas (mais comum na encoprese).

No caso da enurese, poder aparecer devido a fatores genéticos, hormonais, neurofisiológicos, ou problemas orgânicos (alterações ou deformações do aparelho urinário). Contudo as causas mais comuns estão relacionadas com a relação da criança com o meio ambiente, em que há dificuldades relacionais, comportamentais e emocionais, e/ou inadaptação a novos contextos ou mudanças significativas (nascimento de um irmão, divórcio, nova escola). O grau de prejuízo associado à enurese está relacionado com as limitações nas atividades sociais da criança (incapacidade para dormir fora de casa), tem efeitos negativos na sua autoestima, rejeição social pelos pares.

A Encoprese parece estar associada à "prisão de ventre" e à incontinência (incapacidade da criança conter). Esta relacionada com fatores de ordem emocional como: mudanças significativas na vida da criança, ansiedade em evacuar num determinado local, sendo que os hábitos de higiene, as crenças sobre a evacuação transmitidas pelos familiares têm influência, no modo como a criança encara, esse momento. Tal como a enurese também tem um impacto na autoestima da criança e na sua relação com os pares.

O acompanhamento médico e psicológico é importante para ajudar nestes casos a implementar o tipo de intervenção mais adequada a cada criança. O envolvimento dos pais é fundamental no tratamento, para ajudarem a criança a ultrapassar a situação, tomando os cuidados necessários para não transformar estes episódios numa situação traumática.

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

Barros, L. (2004). Perturbações de eliminação na infância e na adolescência. Psicológica 17, Climepsi Editores: Lisboa.

Tavares, S. (2014). Perturbações da Eliminação. In P. Monteiro (cord.),Psicologia e psiquiatria da infância e adolescência (159-173). Lisboa: LIDEL.

Síndrome de Tourette

Segundo a Associação da Síndrome de Tourette, "desordem neurológica ou "neuroquímica" que se caracteriza por tiques (incontroláveis) -  movimento motor ou uma vocalização súbito(a), rápido(a), recorrente, e sem ritmo.

Os sintomas aparecem durante a infância e tendem a diminuir com a idade. Os tiques podem ser motores, principalmente na parte superior do corpo - cabeça, pescoço, ombros, são movimentos involuntários e súbitos causados por contrações musculares. Podem variar desde piscadas e movimento no ombro, a gestos obscenos e movimentos coordenados em duas ou mais áreas do corpo. Também há tiques sonoros, emitidos pela boca ou nariz, por exemplo: repetições de palavras, gritos e uso de palavras obscenas. O repertório de tiques é único para cada pessoa.

Os tiques podem interferir no desempenho escolar, na relação com os pares, na autoimagem e na dinâmica familiar, são vividos inicialmente como eventos "sem sentido", como movimentos isolados ou sons que de forma simples e rápida, explodem para fora do corpo ou da garganta. Inicialmente a criança não está ciente da ocorrência deles, mas com o passar do tempo vai-se tornado consciente. Muitos adolescentes e adultos, experimentam tiques iminentes, como um desejo irresistível, uma necessidade ou tentação que é impossível suprimir ou negar.

Entre 50 a 90% dos doentes desenvolvem pelo menos uma perturbação psiquiátrica ou comportamental. Destacam-se a Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção e a perturbação do espectro obsessivo-compulsivo, como as mais frequentes, seguidas das dificuldades de aprendizagem e perturbações de ansiedade e do humor. Outras alterações que podem ocorrer são: depressão, insónia, redução da capacidade de controlo de impulsos, comportamentos de auto-agressão, redução das funções executivas, e outras alterações do comportamento.

A prevalência estimada varia de 3 a 8 a cada 1.000 crianças em idade escolar. O sexo masculino costuma ser mais afetado do que o feminino, com a relação de 2:1 a 4:1.

No tratamento deve-se  fazer uma análise das implicações que os sintomas têm na vida normal do doente.  O tratamento farmacológico deve ser integrado com intervenções psicoterapêuticas.

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

Oliveira, Ana, & Massano, João. (2012). Síndrome de Gilles de La Tourette: Clínica, diagnóstico e abordagem terapêutica. Arquivos de Medicina, 26(5), 211-217. Recuperado em 15 de feveiro de 2018, de https://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0871-34132012000500003&lng=pt&tlng=pt.

Peterson, Leckman, & Cohen. (1995). Tourette´s Syndrome: A Genetically Predisposed and an Environmentally Specified Developmental Psychopathology. In D. Cicchetti, & D. Cohen, Developmental Psychopathology vol. 2- Risk, Disorder and Adaptation (pp. 213-235). New York: A Wiley Interscience Publication.

Perturbação de Hiperatividade / Défice de Atenção  (PHDA)

Tende a manifestar-se antes dos 12 anos, podendo ser evidente na idade pré-escolar. Para além disso, as queixas devem estar presentes em pelo menos dois contextos diferentes (escola e casa) e devem ter consequências significativas no dia-a-dia da criança, seja do ponto de vista social, seja no desempenho académico.

Afeta 5% a 8% das crianças em idade escolar. Isso significa que, em média, haverá uma criança com esta perturbação por cada 20 alunos.

Apresenta-se com mais frequência no sexo masculino, com uma relação de 2 para 1, ou seja, por cada rapariga que é diagnosticada com PHDA, são diagnosticados 2 rapazes.

É uma perturbação do neurodesenvolvimento. As crianças apresentam um conjunto de características típicas e comportamentos disruptivos (desatenção, agitação motora e impulsividade), que vão condicionar o seu desempenho nos diferentes contextos e atividades em que é exigido um comportamento adequado.

Deste modo, estas crianças tendem a apresentar com alguma frequência: dificuldades de aprendizagem, dificuldades no relacionamento com os pares, dificuldades em cumprir regras e a atingir objetivos, problemas de ajustamento psicossocial e imaturidade.

Sintomas:

- Défice de atenção: dificuldade em regular a atenção, ou seja, em permanecer atento aos estímulos que interessam e ignorar os que não interessam. As queixas típicas são a relutância em iniciar atividades que requerem concentração, interrupções frequentes, demora em concluir as tarefas e a desorganização.

- Hiperatividade: atividade motora excessiva em relação ao que era esperado para a idade; dificuldade em permanecer sentado, sossegado ou calado quando é necessário; necessidade de estar sempre em movimento ou a fazer alguma coisa.

- Impulsividade: dificuldade no controlo dos impulsos, em esperar pela sua a vez, passagem rápida ao ato sem antecipar as consequências.

De acordo com os sintomas que predominam, são reconhecidas três formas de apresentação da PHDA:

- Tipo desatento - com predomínio de sintomas de falta de atenção

- Tipo hiperativo - impulsivo, com predomínio de sintomas de hiperatividade e/ou de impulsividade

- Tipo combinado - quando está presente num número significativo dos três grupos de sintomas: desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Normalmente surge com alguns problemas associados como: Dificuldades Específicas de Aprendizagem, (perturbação da leitura e da escrita (como a Dislexia), a disortografia, e a discalculia (dificuldades nas operações matemáticas)); Perturbação de Oposição-desafio; Perturbação do Comportamento; Perturbação da Linguagem; Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação Motora; Perturbação do Sono e Perturbação de Ansiedade.

Tratamento

Para a definição do tratamento,deve-se ter em conta o perfil de cada criança, a repercussão dos sintomas nos vários contextos e os recursos disponíveis, definindo assim prioridades.

O processo de intervenção deve ser multimodal e englobar diferentes processos de intervenção: farmacológico (nos casos de maior gravidade dos comportamentos disruptivos, se não for complementada com as outras duas intervenções a sua eficácia a longo prazo poderá ser residual, os medicamentos mais frequentes são psicoestimulantes), psicoterapêutico (passando pela psicoeducação - explicação da PHDA, sintomas, como se manifesta e consequências; desenvolvimento de técnicas de gestão de comportamento, gestão emocional, controlo da impulsividade, gestão de tarefas, treino de competências; funciona também como um complemento a intervenção farmacológica) e psicossocial (engloba programas para pais, intervenção nas dinâmicas familiares e na relação pais-criança, programas de intervenção na escola, na sala de aula).

Dicas:

  • Tentar ter uma rotina - Ser organizado pode ajudar a ver onde é preciso estar, o que é preciso fazer e quando é que preciso fazê-lo;
  • Utilizar um bloco de notas ou um diário para anotar detalhes importantes como reuniões, compromissos e números de telefone;
  • Escolher um local agradável e sossegado para fazer os trabalhos de casa (menos distrações significam melhor concentração);
  • Fazer pausas enquanto se faz os trabalhos de casa, esticar as pernas ou dar uma volta;
  • Definir objetivos;
  • Fazer exercício regularmente (ajuda a aliviar o stress e a tensão);
  • Dividir as tarefas grandes em várias tarefas mais pequenas (para completar gradualmente).

Bibliografia: American Psychiatric Association. (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi.

https://www.clubephda.pt/clubephda/

https://www.phda-hiperatividade.pt/


Perturbação do Espectro do Autismo

É uma perturbação do neurodesenvolvimento, (condição médica do sistema nervoso central), que se manifesta na infância e que se caracteriza por dificuldades na comunicação e na interação social (défices: na comunicação verbal e não-verbal, na partilha de emoções) e por comportamentos, interesses ou atividades repetitivas e estereotipadas (rotinas obsessivas padrões ritualizados de comportamentos, movimentos motores e uso de objetos estereotipados ou repetitivos, interesses restritivos e fixos, híper ou hipo sensibilidade sensorial). Os sintomas podem variar entre graus, desde leve a severo.

Exemplificando os autistas fazem comentários pouco adequados, interpretam literalmente as conversas, ou seja, não percebem trocadilhos, metáforas ou a ironia, têm dificuldade em interpretar a comunicação não-verbal, e não fazem amizades facilmente. São também muito dependentes de rotinas, muito sensíveis a mudanças no seu dia-a-dia ou, por vezes, muito preocupadas com alguns objetos, ideias ou temas.

O autismo manifesta-se mais frequentemente no género masculino, a sua proporção é de 4 para 1. Ou seja há mais rapazes do que raparigas. Com o autismo também podem aparecer outros problemas, como a deficiência intelectual, a hiperatividade, o défice de atenção, a epilepsia, a ansiedade ou as perturbações do sono, que trazem ainda mais dificuldades. Os autistas podem também fazer coisas extraordinárias, por exemplo, fazem cálculos matemáticos extraordinários, pintam ou tocam um instrumento muito bem.

As alterações comportamentais típicas do autismo podem ser ou não visíveis na infância (18 a 24 meses), mas são de um modo geral mais evidentes entre os 2 e os 6 anos. Deve-se prestar atenção aos seguintes sinais:

  • A criança não balbucia nem emite sons aos 12 meses;
  • Não executa gestos (como apontar ou acenar) aos 12 meses;
  • Não pronuncia palavras simples aos 16 meses; não forma frases com duas palavras aos 24 meses;
  • Perdeu capacidades de linguagem ou competências sociais em qualquer idade.

A presença de um destes sinais não significa que a criança seja autista mas, uma vez que os sintomas do autismo são tão distintos, é importante, proceder a uma avaliação por uma equipa multidisciplinar, constituída por neurologistas, psicólogos, pediatras, terapeutas da fala e ocupacionais.

Quanto mais precocemente uma criança for diagnosticada, mais rapidamente se pode iniciar o trabalho e por conseguinte mais rapidamente ela poderá avançar. Os pais, os médicos, os terapeutas, e professores podem ajudar as crianças com autismo a ultrapassar ou a ajustarem-se às dificuldades. Aprender a falar é complicado para as crianças autistas, muitos percebem melhor as palavras quando as vêm, os terapeutas ensinam a comunicar com a ajuda de imagens ou com gestos, ensinam também a seguir direções, escovar os dentes, etc. Crianças com autismo ligeiro podem mesmo ir à escola normalmente, mas a maioria precisa de uma escola especial, mais calma, com professores especiais.

Os autistas são muito inteligentes e práticos, quando estabelecem uma relação de confiança são muito afetuosos, assim como qualquer outro ser humano, apenas possuem um jeito autêntico de ver o mundo.

Bibliografia: American Psychiatric Association.(2014). DSM-V: Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais (5.ª ed.). Lisboa: Climepsi;

https://www.fpda.pt/autismo;

https://www.saudecuf.pt/mais-saude/doencas-a-z/autismo;

https://vencerautismo.org/autismo/.

Medo na Infância

Os medos geralmente variam conforme a etapa de desenvolvimento. Os medos mais normais mais comuns são:

0 - 6 meses: perda, barulhos intensos;

7 - 12 meses: estranhos, separação dos pais, objetos que aparecem de repente ou que não conhece;

1 ano: estranhos, separação dos pais, tomar banho;

2 anos: separação dos pais, barulhos intensos (aspiradores, sirenes, alarmes, trovoada), animais, escuro, mudanças no ambiente da criança, objetos grandes;

3 anos: separação dos pais, escuro, máscaras, barulhos estranhos;

4 - 5 anos: separação dos pais, animais, escuro, barulhos noturnos;

6 anos: seres sobrenaturais (fantasmas, bruxas), escuro, estar sozinho, trovoada;

7 - 8 anos: seres sobrenaturais, estar sozinho, ladrões, escuro, notícias vistas na televisão (rapto de crianças);

Bibliografia:

Olds, S., Papalia, D., Feldman, R. (2009). O Mundo da Criança. Lisboa: McGraw-Hill

Pondé, D. (2011). O conceito de medo em Winnicott. 6(2). Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-432X2011000200006

O medo faz parte do desenvolvimento normal das crianças ou adolescentes. É uma resposta emocional a um acontecimento, real ou imaginário, sendo interpretado como ameaçador, é um estado de alerta que pode ser benéfico para agir em situações de perigo. É considerado patológico quando está associado à ansiedade ou a uma sensação intensa de preocupação, que consequentemente influencia as atividades diárias da criança.

As crianças e adolescentes tendem a demonstrar medos distintos: as crianças têm medos mais físicos (cair, queimar-se), enquanto os adolescentes atribuem um valor maior à componente social (medo de errar perante os outros, critica social). A morte contudo é um medo comum a qualquer género e faixa etária.

Os pais podem ajudar a aliviar de certo modo os medos que as crianças possuem, ajudando a criança a encarar o medo em vez de fugir dele. Por exemplo amenizar o medo infantil usando a imaginação da criança.

Nem sempre a ajuda dos pais é suficiente para tranquilizar a criança, quando o medo for intenso, gerando na criança um sofrimento intenso, ou quando ela começar a perder contacto social, escolar ou lúdico, deve procurar um terapeuta.

Perturbações do Sono 

O sono tem a função de restabelecimento do corpo, de reorganização e consolidação de memórias, preparando o cérebro para as tarefas que requerem atenção, vigilância, aprendizagens e regulação emocional.

O sono nas crianças é essencial para o normal crescimento e desenvolvimento, quer nos aspectos físicos, quer emocionais, pois favorece, em condições normais, no bebé, o desenvolvimento de processos de auto-regulação fundamentais para o seu desenvolvimento emocional e interacções sociais futuras.

No entanto, muitas das vezes pode transformar-se num momento particularmente difícil e angustiante, com possível deterioração na relação precoce entre pais e filhos, com eventual compromisso do desenvolvimento. Os problemas de sono na infância são comuns e não têm todos o mesmo significado, pois dependem da natureza do problema, da intensidade, dos sinais associados, da idade em que ocorrem e a sua evolução. 

Nas suas formas mais graves, e independentemente da idade, causam impacto significativo no dia-a-dia das crianças e famílias, quer do ponto de vista social, quer comportamental, emocional e académico.  

Se o seu filho apresenta problemas em adormecer persistentes no tempo, como a recusa em deitar-se, dificuldades em iniciar ou manter o sono depois de acordar sem a presença dos pais, ter despertares abruptos noturnos onde fica desorientado e confuso, apresenta enurese noturna e onde nenhuma técnica parece resolver a situação procure a ajuda de um profissional especializado. 

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